A China e o Mundo

11 ago 14

O lado B dos BRICS – parte 2

BRICS.2014

Mais outra matéria sobre a VI Cúpula dos BRICS publicado no Brasil Econômico e que conta com meus comentários.

BRASIL ECONÔMICO: Divergências geram tensão entre os Brics (16/07/2014)

As fotos de líderes de mãos dadas não refletem os atritos que vários temas provocam entre os países do bloco, como as pretensões comerciais da China na América Latina

Apesar do clima de ótimos amigos que os mandatários dos Brics transpareceram após a cúpula de ontem, remanesceram do encontro divergências importantes das quais os participantes não poderão se esquivar por muito tempo. Não à toa, no acordo fechado em Fortaleza, o Brasil tratou de assegurar uma equidade na participação dos integrantes dos Brics no banco de desenvolvimento. Um peso maior da China poderia fazer com que o país asiático tivesse também um poder maior de decisão sobre a gestão dos investimentos da instituição. Mas o esforço brasileiro para evitar uma hegemonia chinesa não se esgota aí. A própria realização da reunião entre os Brics e países da América do Sul, agendada para hoje em Brasília, demonstra, na visão de especialistas, uma necessidade do Brasil de marcar posição em relação à China no continente.

“O Brasil tomou a iniciativa de convocar essa reunião porque os chineses querem um acordo de livre comércio com a América Latina e o governo brasileiro tem resistido a isso. O Brasil é um país com pretensões elevadas no cenário internacional, como integrar o Conselho de Segurança da ONU, e com um peso econômico muito maior do que os demais países da região. Ele teria um peso diferenciado num acordo como esse. Por isso, tomou a iniciativa de liderar o diálogo, sem correr o risco de ser ultrapassado pela China”, afirmou o especialista em relações internacionais Evandro Menezes, professor da FGV Direito Rio e professor visitante da Fudan University (China) e Senior Scholar da Shanghai University of Finance and Economics (Programa OEA-China).

Na entrevista coletiva, a presidenta Dilma Rousseff disse que não há riscos de que a China tenha uma posição hegemônica no novo banco de desenvolvimento. “No banco dos Brics, optamos por fazer uma distribuição igualitária do capital subscrito porque nenhum de nós quis se mostrar hegemônico perante os demais”, afirmou a presidenta, acrescentando que a questão igualitária das cotas previne a possibilidade de hegemonia chinesa. Dilma acrescentou que, principalmente, Brasil e Rússia também terão elevada capacidade de contribuir financeiramente com a instituição, devido ao seu alto nível de reservas. “Eu não acredito que o formato do banco dos Brics levará a um conflito do padrão das instituições de Bretton Woods”, afirmou Dilma.

10 ago 14

O lado B dos BRICS

BRICS.image

Em julho deste ano de 2014 realizou-se a VI Cúpula dos BRICS na cidade de Fortaleza – nome bastante sugestivo para o que veio a ocorrer como resultado deste encontro: a criação do Novo Banco de Desenvolvimentos dos BRICS. Pela primeira vez, os países BRICS dão um passo importante na direção de uma institucionalização deste forum político e econômico. A imprensa brasileira destacou o fato do Brasil ter cedido à Índia a primeira presidência do Banco. A este respeito, não vejo aí nenhum sentido que desmereça a atuação do Itamaraty. A presidência do Banco será rotativa. Divulgo aqui no meu blog matéria de Mariana Mainenti e Sonia Filgueiras do jornal Brasil Econômico (publicada em 16/07/2014) que conta com a minha participação.

BRASIL ECONÔMICO: Brasil cede NBD à Índia

Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics ficará na China. O governo brasileiro presidirá o Conselho de Administração

O Brasil acabou cedendo para que o acordo de criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o banco dos Brics, pudesse ser anunciado ontem, ao final da sexta reunião de cúpula do grupo, em Fortaleza. Após negociações ao longo da terça-feira entre os cinco países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o governo brasileiro, que chegou a aspirar a primeira presidência da instituição, abriu mão do pleito em favor da Índia, que disputava a sede com a China. O Brasil cedeu a partir de um pedido dos próprios indianos, que passaram a considerar a presidência uma alternativa, já que a China mostrava forte interesse em sediar a instituição.

05 fev 14

O avanço chinês na internacionalização da educação

Post.Education.China.2

No resultado do PISA-2012 (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), divulgado no final do ano passado e aplicado a 510 mil alunos, a cidade de Xangai ocupou a primeira posição dentre os 65 países avaliados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os estudantes de Shanghai tiveram o melhor desempenho nas três dimensões avaliadas: matemática, leitura e ciências. Foram avaliados aproximadamente 6.400 estudantes de 155 escolas daqui de Xangai. De acordo com o relatório do PISA, os estudantes de Xangai reservaram uma média de 13.8 horas por semana fazendo trabalhos escolares, quase três vezes acima da média de 4.9 horas gastas pelos demais estudantes.

As 10 potências mundiais na educação são as seguintes:

Programa Internacional de Avaliação de Alunos – PISA 2012

RANKING DE LEITURA

RANKING DE MATEMÁTICA

RANKING DE CIÊNCIAS

Economias Média Economias Média Economias Média
1º – Xangai-China 570 1º – Xangai-China 613 1º – Xangai-China 580
2º – Hong Kong-China 545 2º – Cingapura 573 2º – Hong Kong-China 555
3º – Cingapura 542 3º – Hong Kong-China 561 3º – Cingapura 551
4º – Japão 538 4º – Taiwan (Taipei-China) 560 4º – Japão 547
5º – Coreia do Sul 536 5º – Coreia do Sul 554 5º – Finlândia 545
6º – Finlândia 524 6º – Macau-China 538 6º – Estônia 541
7º – Irlanda 523 7º – Japão 536 7º – Coreia do Sul 538
8º – Taiwan(Taipei-China) 523 8º – Liechtenstein 535 8º – Vietnã 528
9º – Canadá 523 9º – Suíça 531 9º – Polônia 526
10º – Polônia 518 10º – Holanda 523 10º – Canadá 525
Média da OCDE 496 Média da OCDE 494 Média OCDE 501
55º – Brasil 410 58º – Brasil 391 59º – Brasil 405

As economias asiáticas estão dominando o ranking educacional. China se faz presente com Xangai, Hong Kong, Macau e, também, Taiwan. Brasil está abaixo da média da OCDE amargando uma posição vergonhosa apesar de ser a sétima economia do mundo. Em relação ao penúltimo PISA, de 2009, o Brasil perdeu posição em todas as três dimensões avaliadas. Na Copa do Mundo da Educação, somos freguês, o Íbis da educação (com perdão da comparação com o time pernambucano que ficou mundialmente famoso como o pior time do mundo). Já Xangai manteve-se na liderança. Está na série A do ensino.

08 dez 13

Jango na China de ontem e no Brasil de hoje

Jango.China

Sexta-feira passada (06/12/13), trinta e sete anos depois de sua morte, o ex-Presidente João Goulart foi enterrado com honras de Chefe de Estado no município de São Borja, no Rio Grande do Sul, local onde nasceu. Seu corpo havia sido exumado no dia 13 de novembro passado a pedido da Comissão Nacional da Verdade que investiga as causas da morte dele. Quer-se esclarecer se o ex-Presidente morreu de um ataque cardíaco (tal como oficialmente registrado) ou se teria sido assassinado pela ditadura militar na chamada Operação Condor. Este importante fato – que mereceu pouca atenção da grande mídia brasileira – fez-me relembrar um importante momento da história política de nosso país.

Agosto de 1961. João Goulart, então vice-presidente do Brasil, encontrava-se na China na primeira missão diplomática oficial de um representante brasileiro a este país. Diante das autoridades chinesas, proferiu o seguinte discurso:

24 nov 13

O sonho chinês e o mundo

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Recentemente, o Departamento Internacional do Comitê Central do Partido Comunista Chinês (PCCh) convidou seis think tanks sul-americanos para discutir a viabilidade de uma zona de livre comércio entre a China e os países latino-americanos. Integrei a delegação como representante da FGV e me coube falar das perspectivas de um acordo de livre comércio entre China e Mercosul. Foram várias reuniões e visitas técnicas que ocorreram nas cidades de Pequim, Nanning, Beihai e Shanghai. Tudo custeado pelo governo chinês. O tema da palestra de abertura dos trabalhos foi “o sonho chinês e o mundo”, proferida pelo subdiretor do escritório de investigação do Departamento Internacional do Comitê Central do PCCh, Sr. Luan Jianzhang.

A relação com a América Latina é estratégica para a China. Em 2010 os chineses investiram US$ 11 bilhões na região – 24% a mais do que os US$ 8.9 bilhões investidos em 2009. A América Latina é, hoje, o segundo maior receptor de investimentos chineses, depois do continente asiático. E o Brasil é o principal destino destes investimentos, seguido por Peru, Argentina e Chile. No âmbito do comércio exterior, as exportações da América Latina e do Caribe para a China no período de 2006 a 2010 tiveram uma taxa de crescimento anual de quase 34%, passando de US$ 22.6 bilhões para US$ 72 bilhões. A China tornou-se o terceiro mais importante parceiro comercial da América Latina, e, de acordo com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), será o seu segundo maior parceiro comercial em 2014. O sonho chinês se cruza com o sonho latino-americano (seja ele qual for) e tem o Brasil como um dos seus personagens centrais.

28 set 13

Xangai: primeira cidade-livre da China?

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O restaurante é de comida típica mexicana. Chama-se Togo Taco. Na TV localizada atrás do balcão vejo o seriado “The Big Band Theory”. Na parede próxima à mesa onde estou sentado, uma foto de Marilyn Monroe e outra do Che Guevara. Várias pessoas ao meu redor falando inglês. Não, não estou em algum país americano mas, sim, na China de Xangai. O restaurante localiza-se na charmosa Rua da Universidade (Daxue Lu), no distrito de Yangpu. Este distrito (que poderia ser equivalente ao nosso conceito de “bairro”) já acolheu muitas indústrias no passado. Hoje, é conhecido como o distrito do conhecimento e da inovação em razão da concentração de universidades – dentre as quais a Universidade Fudan e a Universidade de Xangai de Finanças e Economia – e de empresas de tecnologia tais como IBM, Oracle e EMC2. Uma área nova, moderna e com muitos estudantes e profissionais estrangeiros. Há dez anos atrás, um cenário improvável.

Xangai não é a China mas é uma parte importante dela que aponta para o que pode vir a ser este país no futuro.

24 ago 13

WeChat e a Praça (virtual) do Povo

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O que a Praça do Povo, no centro de Shanghai, tem em comum com o WeChat?

No coração de Shanghai, a Praça do Povo (人民广场 , em pinyin Rénmín Guǎngchǎng) é o espaço público central da cidade com várias lojas, museus, escritórios, restaurantes e cafés ao redor. Todos os domingos pela manhã acontece o “mercado do casamento”. Centenas de cartazes são expostos por pais à procura do parceiro ideal para o seu filho ou filha. Há, também, a possibilidade de o próprio interessado fazer, pessoalmente, a sua propaganda por lá. Diz-se que um anúncio custa mais de três dólares para ser exibido por cinco meses. Não me pareceu haver qualquer tipo de controle ou gerenciamento organizado destes anúncios quando por lá estive.

E o que o WeChat tem a ver com isto? O WeChat (Em chines: 微信. Em pinyin: Wēixìn,  literalmente, “micro mensagem”) é também um ambiente de encontro, só que virtual. Lançado em janeiro de 2011 pela Tencent, empresa cuja sede situa-se em Shenzhen, o WeChat é hoje o aplicativo de comunicação de mensagens de voz e texto via celular mais popular da China. Estima-se que possui mais de 400 milhões de usuários. São dois “Brasis”. E está revolucionando a forma dos jovens chineses fazerem amizades e, eventualmente, encontrarem a sua cara-metade. Basta dar um “shake” ou “look around” para localizar um alvo perto de você e enviar um simpático 你好吗? (“Ni Hao Ma?”). Mais discreto, simpático e instantâneo do que a Praça do Povo, o WeChat dá aos jovens o protagonismo na busca do parceiro sem a intermediação dos pais.

09 jun 13

China, USA and the Soft Power

Blog_Yin_Yang[China.EUA]

Last week, the two most powerful men on planet met. Three months after his tenure, Xi Jinping went to the United States of America (USA) invited by Obama. It is a noteworthy fact. After all, their predecessors – Jiang Zemin and Hu Jintao – made their first trips to USA only a few years after having assumed the Chinese Government. Obama welcomed Xi in Sunnylands, California. The place was inviting and relaxing (http://sunnylands.org). A wide range of bilateral, regional and global affairs were on the table. Cyber Security, the Koreas, Iran, Syria, Middle East, Central Asia, economic and financial crisis, WTO trade disputes and the environment were possibly part of breakfasts, lunches and dinners’ menu. However, the main purpose was to establish a good personal relationship between them in order to allow discussions on ways of cooperation and management of the differences in a more effectively way for the next years. It is a valid effort.

China’s economic rise and its relationship with the USA have evoked several debates on world’s future. Many wonder if the two countries will enter into deliberate conflict or will be able to establish a relationship of peaceful cooperation. As mankind’s history is marked by war and peace, such a question has its relevance assured.

Looking for answers, analysts are leaning over data highlighting the power of these two Nations for this century. On one hand, the so-called hard power and, on the other, the soft power.

02 jun 13

EUA, China e o soft power

Blog_Yin_Yang[China.EUA]

Nesta semana, nos dias 6 e 7 de junho, os dois homens mais poderosos do planeta vão se encontrar. Após três meses de sua posse, Xi Jinping irá aos EUA a convite do Obama. Fato digno de nota. Afinal, os seus antecessores – Jiang Zemin e Hu Jintao – fizeram suas primeiras viagens aos EUA somente alguns anos após terem assumido o governo chinês. Obama recepcionará Xi em Sunnylands, na Califórnia. O lugar é convidativo e relaxante (http://sunnylands.org). Mas a ampla gama de assuntos bilaterais, regionais e globais perturbam o sono dos dois chefes de Estado. Cyber segurança, as Coreias, Irã, Síria, Oriente Médio, Ásia Central, crise econômica e financeira, conflitos comerciais na OMC e meio ambiente, devem compor o cardápio dos cafés, almoços e jantares. O objetivo principal, contudo, é estabelecer um bom relacionamento pessoal entre eles que permita discutir formas de cooperação e de gestão das diferenças de maneira mais eficaz para os próximos anos. O esforço é válido.

A ascensão econômica da China e sua relação com os EUA têm suscitado inúmeros debates sobre o futuro do mundo. Muitos se perguntam se os dois países entrarão em conflito deliberado ou se saberão estabelecer uma relação de cooperação pacífica. Dado que a história da humanidade é marcada por guerra e paz, fazer tal indagação tem a sua pertinência garantida.

Na busca de respostas, analistas se debruçam sobre dados que evidenciam o poder das duas nações para este século. De um lado, o chamado hard power e, de outro, o soft power.

22 abr 13

O que a China tem a ver com a África?

africa_china_signpostsÀ primeira vista a resposta à pergunta do título deste post seria: “nada”. Só que não. A China tem, cada vez mais, tudo a ver com a África. Nas universidades chinesas, no noticiário, nas propagandas de roteiros turísticos e, sobretudo, nos negócios, o contato entre africanos e chineses está cada vez maior. No canal de notícias chinês CCTV News há um programa jornalístico dedicado exclusivamente ao continente africano. O que está por detrás deste interesse chinês pela África?

Dois temas preocupam a China e orientam a sua política externa. São eles: segurança alimentar e energética. O desenvolvimento acelerado combinado com uma população de mais de 1 bilhão e 300 milhões de habitantes fazem com que a China não tenha como prover sozinha a sua demanda por energia e alimentos. A África é o mapa da mina mais próxima para a aquisição destes recursos a baixo custo. O continente africano ocupa quase um quarto da superfície terrestre, abriga 10% da população global, cifra que irá dobrar até 2050, e nele encontram-se recursos minerais bastante cobiçados, como o ouro, o diamante, o manganês, o cobalto, o zinco e o petróleo. A África possui ainda grande potencial agrícola.  Esses fatores explicam o fato do Presidente chinês Xi Jinping ter escolhido a Tanzânia e o Congo, além da Rússia, parceira mais tradicional, como seus destinos em sua primeira viagem internacional. No meio deste percurso, houve uma parada em Durban, na África do Sul, para participar da 5o Cúpula dos BRICS.