Verdades do Passado; Vozes do Presente

maio 4, 2026

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No dia 29 de abril deste ano de 2026, participei, em Nanjing, de um evento para comemorar o 80º aniversário do estabelecimento do Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, o chamado Tribunal de Tóquio. Estabelecido em 3 de maio de 1946, este tribunal foi composto de 11 juízes (representantes da China, dos Estados Unidos, da União Soviética, do Reino Unido, dos Países Baixos, da França, da Austrália, da Nova Zelândia, do Canadá, da então Índia Britânica e das Filipinas) que examinaram a responsabilidade de líderes japoneses pelas atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial.

Um dos palestrantes presentes no evento, Kléber Arhoul, curador do Caen Memorial Museum (França), manifestou a opinião de que a Segunda Guerra Mundial teve início e término na Ásia. Opinião que compartilho. No ano passado, ao participar de um evento para marcar o 80º aniversário da vitória na Guerra de Resistência do povo chinês contra a agressão japonesa e na Guerra Antifascista Mundial, a convite do Consulado-Geral da China no Rio de Janeiro, destaquei o fato de que as primeiras hostilidades japonesas contra a China, no século XX, ocorreram no final de 1931; e que o dia 7 de julho de 1937 entra para a história como o início da fase mais sangrenta da Guerra de Resistência chinesa contra a invasão japonesa. Esta é a data que marca o início da Segunda Guerra Mundial para os chineses, e não o 1º de setembro de 1939 com a invasão alemã na Polônia. Ainda para a China, o término da Segunda Guerra Mundial não se dá em 8 de maio de 1945, com a rendição da Alemanha nazista, mas alguns meses depois, mais precisamente em 2 de setembro daquele ano, com a rendição oficial e incondicional do Japão.

 Em novembro de 1937 – portanto, antes da Guerra chegar no continente europeu – ocorre uma das maiores tragédias da história da humanidade: o Massacre de Nanjing. Milhares de soldados japoneses capturaram a então capital da China e cometeram execuções em massa. Dentre as vítimas, milhares de idosos, crianças e mulheres, muitas delas sofreram violência sexual sistemática. Foram mais de 300.000 chineses assassinados. Este é um dos episódios mais trágicos e brutais do século XX e ainda sub-representado quando se trata de contar a história da Segunda Guerra Mundial.

Eu havia me debruçado sobre este tema durante a minha primeira longa temporada chinesa em Shanghai (2013 e 2015). No dia 21 de março de 2015, no contexto dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, publiquei um texto que abordou os fatores complicadores da relação sino-japonesa (ver o link abaixo). O Massacre de Nanjing é um tema central neste debate. Mencionei a visita que o então Primeiro-Ministro japonês, Shinzo Abe, fez ao santuário de Yasukuni em 2013. Este santuário lista, no rol dos nomes dos militares japoneses mortos na Segunda Guerra, 14 criminosos de guerra condenados pelos países Aliados. A reação chinesa a esta condescendência japonesa em relação aos condenados pelo Tribunal de Tóquio ocorreu no ano seguinte. Em 2014, a Assembleia Popular Nacional (APN) aprovou a criação de dois dias nacionais em memória das atrocidades de guerra cometidas pelo Japão na China. São eles: o dia 3 de setembro, data seguinte à rendição oficial do Japão em 1945, e o dia 13 de dezembro, dedicado à memória das vítimas do Massacre de Nanjing, em 1937.

Eu havia visitado o Memorial das Vítimas do Massacre de Nanjing alguns anos antes e pude compreender melhor o significado histórico deste trágico episódio para o povo chinês e para a humanidade. E agora em 2026, o sentimento foi ainda mais impactante. Eu estava lá como convidado para prestar homenagens às vítimas. Ao ingressar no Memorial, com suas pedras escuras de solene arquitetura, e depositar as flores brancas diante da Chama Eterna, tudo parecia ter se silenciado ao redor. Eu me senti parte deste silêncio. Um sentimento paradoxal. Estando ali, entre os vivos, desaparecemos por um certo tempo para fazer presentes os que se foram.

No meu discurso, feito horas depois no auditório do Memorial e diante de uma plateia seleta e de muitos jornalistas, recordei que o Tribunal de Tóquio, tal como o seu homólogo em Nuremberg, ajudou a estabelecer princípios que seriam posteriormente refinados e institucionalizados, incluindo a responsabilidade penal individual por crimes de guerra e a ideia de que certos crimes ofendem a comunidade internacional como um todo. As evidências apresentadas ao Tribunal não foram apenas testemunhais, mas também estatísticas e materiais. Os registros do julgamento indicam que, nas semanas após a queda de Nanjing, dezenas de milhares de estupros ocorreram, vastas áreas da cidade foram destruídas e os assassinatos em massa atingiram uma escala que chocou até mesmo os observadores da época. Esses não são números dissociados da realidade; representam vidas extintas, famílias destruídas e um tecido social violentamente dilacerado.

Os documentos do Massacre de Nanjing foram reconhecidos internacionalmente, incluindo sua inscrição no Registro da Memória do Mundo da UNESCO. Esse reconhecimento confirma que o que temos aqui não é uma questão de narrativa nacional, mas sim parte da memória compartilhada da humanidade. Na ocasião do evento, tive a honra de participar da cerimônia de lançamento do livro “Tokyo Trial: evidence and judgment on the Nanjing Massacre” cujo exemplar foi entregue a mim diretamente pelo sr. Gao Anming, Editor Chefe do Grupo de Comunicações Internacionais da China. Este livro se junta a outros lançados em anos anteriores, como “História de Vida de Chang Zhiqiang, Sobrevivente do Massacre de Nanjing”, também publicado pela Foreign Language Press, em 2020. Trata-se de um registro histórico autêntico da trajetória de Chang Zhiqiang, sobrevivente do massacre, que se tornou órfão de guerra aos 9 anos e precisou superar as adversidades e seguir adiante com a própria vida. Já idoso, encontrou no Memorial das Vítimas do Massacre de Nanjing um refúgio espiritual e passou a compartilhar seu doloroso testemunho com o mundo visando preservar a memória desta história para futuras gerações. A autora do livro, Chang Xiaomei, é a filha caçula de Chang Zhiqiang, o que confere ao livro uma sensibilidade única ao captar, de maneira cativante e profunda, as emoções do protagonista.

Já o livro “Tokyo Trial” contém vários depoimentos chocantes de estrangeiros e chineses que testemunharam em primeira mão os assassinatos e os estupros diários e em série cometidos por soldados japoneses em Nanjing, tudo com a cumplicidade dos generais e do governo japonês da época. Há o depoimento do americano John Gillespie Magee perante o Tribunal. Ele havia sido ministro da Igreja Episcopal em Nanjing de 1912 a 1940, e testemunhou o massacre. Quando perguntado sobre qual foi a atitude dos soldados japoneses em relação às mulheres e crianças em Nanjing após ocuparem a cidade, respondeu:

“Era novamente a mesma história, inacreditavelmente terrível. Os estupros continuavam dia após dia. Muitas mulheres foram mortas, e até crianças. Se uma mulher resistisse ou se recusasse, era morta ou esfaqueada. Fotografei, fotografei os ferimentos de muitas dessas mulheres – mulheres com o pescoço cortado, facadas por todo o corpo. Se o marido da mulher tentasse ajudá-la de alguma forma, era morto.”[1]

Em outra passagem, John G. Magee conta o que ouviu de uma viúva de, aproximadamente, 40 anos, de sua mãe de 77 anos e a neta de 12 anos:

“Esta viúva, quando os japoneses entraram pela primeira vez, foi estuprada repetidamente. Então, elas decidiram tentar fugir para a nossa Zona de Segurança. No caminho, enquanto caminhavam pela rua escura, a mulher se separou de sua mãe idosa. A mãe nos contou que ela havia sido levada para uma casa no caminho e estuprada duas vezes. Setenta e sete anos! A viúva, depois de retornar para casa, vinda da segurança do Colégio Gingling, nos contou que havia sido estuprada muitas vezes. Ao todo, acho que ela disse que havia sido estuprada entre dezessete e dezoito vezes”.[2]

O neto de John Magee participou do evento, mas de maneira remota. Em sua fala, disse sobre o avô: “Talvez seu ato de desafio mais perigoso e profundo tenha sido a decisão de filmar secretamente as atrocidades japonesas ao seu redor.” Dizer (e mostrar) a verdade pode causar constrangimento a alguns, inclusive constrangimento diplomático. Mas não seria mais constrangedor não dizê-la? Não podemos silenciar as vozes daqueles que sofreram e morreram em Nanjing.

A memória de eventos traumáticos não pertence apenas aos povos que os vivenciaram, mas à humanidade como um todo. Assim como o Holocausto, o Massacre de Nanjing precisa ser lembrado para que tragédias semelhantes não se repitam. O Massacre de Nanjing deve integrar o patrimônio moral global de advertência contra a barbárie.

Olhando para o presente, os julgamentos do Tribunal de Tóquio nos convidam a uma reflexão profunda. O nazifascismo, bem como o militarismo japonês, que acreditávamos terem sido derrotados em 1945, parece não ter desaparecido. Há sinais de que ressurgiram nos anos recentes, muitas vezes mascarados por discursos nacionalistas extremos que promovem ódio contra minorias, manipulam a verdade e atacam as instituições.

O genocídio em Gaza é o símbolo mais evidente de que estamos à beira de um novo conflito mundial, dada a incapacidade do mundo de pôr fim ao mal e fazer prevalecer a paz e a razão. Ideologias nazifascistas e militaristas já mostraram que nunca se dão por satisfeitas em seus desejos mais sórdidos. É por isso que a memória da resistência chinesa, e do esforço mundial na Guerra Antifascista, precisa ser preservada e transmitida. É por isso que precisamos estar vigilantes.

A memória do Massacre de Nanjing nos desafia a perguntar: o que acontece quando as atrocidades são negadas, minimizadas ou esquecidas? O que acontece quando a verdade histórica se torna uma questão de conveniência política? Sem verdade, não há justiça. Sem justiça, não há paz.


[1] “It was again the same story, unbelievably terrible. The rapings continue day by day. Many women were killed and even children. If a woman resisted of refused, she was either killed or stabbed. I took pictures, moving pictures of the wounds of many of these women – women with their necks slit, stabs all over their bodies. If the husband of the woman tried to help her in any way, he was killed.” Memorial Hall of the Victims in Nanjing Massacre by Japanese Invaders. Tokyo Trial: evidence and judgment of the Nanjing Massacre. Beijing: Foreign Language Press, 2025, pp. 328-329.

[2] “This widow, when the Japanese first entered, had been raped repeatedly. Then they decided to try to escape to our Safety Zone. On their way, as they were going along the street in the dark, the woman got separated from her old mother. The mother told us that she had been taken into a house on the way and raped twice. Seventy-seven years old! The widow, after returning to her home from the safety of Gingling College, told us she had been raped many times. Altogether I think she said she had been raped between seventeen and eightenn times”. Memorial Hall of the Victims in Nanjing Massacre by Japanese Invaders. Tokyo Trial: evidence and judgment of the Nanjing Massacre. Beijing: Foreign Language Press, 2025, p. 333.

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