21 mar 17

A troca de papeis no palco mundial

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O ano de 2017 iniciou-se com dois fatos que chamaram a atenção do mundo. De um lado, a posse do presidente dos EUA, Donald Trump, que, em seu discurso, explicitou o abandono do compromisso dos EUA com uma ordem internacional baseada no multilateralismo e na cooperação de ganhos mútuos. “Deste dia em diante, vai ser só a América primeiro, a América em primeiro lugar”. E complementou: “Devemos proteger nossas fronteiras das devastações dos outros países fazendo nossos produtos, roubando nossas empresas e destruindo nossos empregos. A proteção vai levar à grande prosperidade e força”. Por fim, proclamou: “Vamos seguir duas regras simples: comprar produtos americanos e contratar americanos”. Com este discurso, Trump rompe com a tradição americana de defesa da globalização econômica e do livre comércio, prenuncia uma política externa protecionista e põe em xeque a utilidade das organizações internacionais. A mensagem é simples: cada um por si a partir de agora.

De outro lado, por ocasião do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, o presidente da China, Xi Jinping, pede por mais abertura e menos protecionismo, ressaltando que “muitos dos problemas que preocupam o mundo não são causados pela globalização econômica”. Xi lembra que a crise dos refugiados do Oriente Médio e do Norte da África é causada pelas guerras e conflitos regionais, e a crise financeira internacional é consequência da falha da regulamentação do sistema financeiro. “Apenas culpar a globalização econômica pelos problemas do mundo é inconsistente com a realidade, e não ajudará a resolver os problemas”, disse, acertadamente, o presidente chinês. Xi foi ainda mais enfático ao afirmar que se deve “dizer não ao protecionismo” e finalizou seu raciocínio com uma metáfora adequada para o contexto que vivemos: “Enquanto o vento e a chuva podem ser mantidos fora, esse quarto escuro também irá bloquear a luz e o ar. Ninguém emergirá como vencedor em uma guerra comercial.” Em outras palavras, o protecionismo não gera prosperidade e não prevenirá as nações das turbulências econômicas e dos problemas sociais.

Interessante notar que China e EUA estão com posições discursivas diametralmente opostas. É verdade que os discursos foram proferidos em ocasiões solenes distintas e para públicos bem diferentes. Sabemos, também, que discursos diplomáticos não são necessariamente um retrato da realidade do país de seu emissor. Mas eles cumprem o papel de, no mínimo, apontar uma direção para o futuro ainda que o tempo presente seja revelador de fatos que contradizem o que foi dito. Não se trata de defender, aqui, uma visão cínica da realidade, mas de ser – pegando emprestado definição do imortal Ariano Suassuna – um “realista esperançoso”. Mas não está fácil quando a retórica diplomática é pouco amistosa.

O presidente do Conselho Europeu, Donaldo Tusk, alertou que “declarações preocupantes da nova administração americana” tornam o futuro da União Europeia “altamente imprevisível”. Mas não somente da União Europeia. Neste cenário, a China desponta como a principal fiadora da paz e da estabilidade mundial diante de sua pujança econômica e do discurso equilibrado de seu presidente. Boa parte da mídia ocidental compartilha desta percepção. No dia 29 de janeiro deste ano o jornal El País publicou artigo com o título “China se projeta como baluarte da ordem mundial em ‘tempos incertos’”. Naquela mesma data, o jornal britânico Independent declarou: “A dominação ocidental no cenário mundial está chegando ao fim – estamos entrando agora na era da influência chinesa”. Estas notícias denotam a importância da China para o mundo mas também partem do pressuposto de que o mundo precisa ser liderado por um país, sem possibilidade de haver responsabilidades compartilhadas. Esta pressuposição é reforçada quando recordamos o que disse Obama no ano passado: “Não podemos permitir que países como a China escrevam as regras da economia global (…) Devemos escrever essas regras.” Ou seja, para os EUA o sistema internacional é um jogo de soma zero. Um ganha e outro,  necessariamente, perde. Com ou sem Trump, esta me parece ser a política central dos EUA. O que muda, com o Trump, é a abordagem.

Lideranças mundiais que saibam fazer bom uso da palavra, mantendo a serenidade em tempos difíceis, ajudam a criar um ambiente de confiança mais aberto ao diálogo. Retóricas protecionistas ou belicistas erguem obstáculos à diplomacia. E quando não há verbo, sobra espaço para o uso da força. O multilateralismo é o antídoto contra a lei do mais forte e salvaguarda a integridade das organizações multilaterais e o respeito ao direito internacional. Na falta de ações concretas neste sentido, que se preserve, ao menos, a força construtiva das palavras.

*Artigo originalmente publicado na revista China Hoje, 11a edição. O presente artigo contou com a fundamental colaboração do também Editor da China Hoje, Alfredo Nastari.

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