Entre cafés, vinhos e chás

jun 5, 2016

Starbucks.China

Estou ministrando um curso na FGV Direito Rio sobre o tema “Fazendo Negócios com a China”. Trata-se de uma disciplina optativa para alunos de graduação. E vários deles inscreveram-se. Confesso que fiquei surpreso. Afinal, que país atualmente poderia ser tema de uma disciplina e atrair vários alunos em um curso de direito? Um curso sobre “Fazendo Negócios com a França”, ou com a Alemanha e mesmo com os EUA, teria o mesmo apelo?

O interesse pela China tem aumentado nos últimos anos em razão das oportunidades de negócios que tem proporcionado o incremento das relações comerciais bilaterais e os investimentos chineses no Brasil. Mas se de um lado a presença chinesa é um fato que gera oportunidades, de outro enseja preocupações, afinal a concorrência dos produtos chineses pode ser fatal para alguns produtos brasileiros. Porém, ao invés de temer este cenário, deveríamos apressarmo-nos a aprender como os chineses atuam no mercado, negociam, consomem e vivem sua vida para, assim, podermos tirar o melhor proveito desta nova realidade – seja para cooperar, seja para melhor competir com eles.

A raiz de todos os temores com o avanço da China em nosso mercado e da dificuldade de entrarmos no mercado deles é a falta de conhecimento que temos sobre a China contemporânea. Recentemente, representantes do Ministério da Cultura do Brasil me pediram conselhos a respeito da visita de uma delegação de chineses que chegaria em Brasília no dia seguinte. Ao concluir a conversa fiquei com a sensação de que o nosso método de aproximação e de relação com a China peca pela ausência de uma compreensão dilatada sobre como se relacionar com os chineses.

É verdade que temos várias empresas brasileiras se relacionando com empresas chinesas – embora sejam poucas as que tem presença efetiva na China. É verdade que os intercâmbios acadêmicos com a China tem aumentado, mas ainda estamos muito aquém da nossa capacidade de desenvolver um saber estruturado de acordo com a nossa necessidade estratégica – dado o peso da China no mundo – se compararmos com os intercâmbios acadêmicos que temos com países da Europa e da América do Norte. O ocidentalismo do nosso campo de visão deixa-nos cegos ao que está acontecendo na área mais dinâmica do mundo hoje: a Ásia. E a China é o motor deste dinamismo asiático.

É preciso manter com os chineses uma relação de cooperação mais constante e com objetivos claros. E devemos, sobretudo, investir mais nas relações pessoais. Mas, para isto, é preciso compreender a mentalidade chinesa. Entre desfrutar um jantar no estilo francês e outro no estilo chinês, sabemos qual será provavelmente a opção do brasileiro. Pois bem, enquanto preferirmos e dependermos dos prazeres do élan europeu ou estadunidense, abriremos mão daquilo que é essencial para o nosso país: ter uma abertura cultural para a descoberta de novas possibilidades de viver o mundo e construir o nosso futuro. Para isto acontecer, é preciso sair da zona de conforto e, no que diz respeito ao nosso tema, cultivar um querer gostar da China que nos leve a ter uma sincera intimidade com a cultura chinesa que somente o convívio com os chineses e o conhecimento mínimo de seu idioma poderão oferecer.

A China, apesar das suas dificuldades próprias, parece estar mais aberta do que nós a se transformar para dialogar com o mundo atual. Ela faz isto por necessidade estratégica, é certo. E tem uma grande vantagem sobre nós: ela já é asiática e está aprendendo a ler o ocidente. Nós nos vemos como ocidentais e somos pouco interessados em estudar a Ásia. Eis a diferença.

Jacques Gernet, argelino que foi professor da Sorbonne e titular da cadeira de história social e intelectual da China no Collège de France, em seu livro sobre a época contemporânea na China, sublinhou que seria um erro acreditar que o sucesso da China dependeria de sua capacidade de copiar o Ocidente pois, explicou ele, nem tudo que é ocidental pode ser tido como sinônimo de progresso. E concluiu: “Sem dúvida o Ocidente muito rapidamente fez identificar modernidade e ocidentalização e não tomou consciência da grave deficiência que constitui para o futuro sua ignorância desta parte da humanidade, de sua história e suas raízes”, referindo-se à China.

Provavelmente Gernet sabe apreciar o valor de um bom chá chinês mesmo morando na terra dos melhores vinhos. Eis aqui uma boa metáfora. Para se fazer negócios com a China de modo enriquecedor para o Brasil é preciso, antes, conhecer e saber apreciar o chá chinês. Em 1999, uma empresa estrangeira abriu uma loja de café no país do chá. Hoje esta empresa tem mais de 1900 estabelecimentos em mais de 100 cidades da China. É a Starbucks. Por que será? Talvez porque tenha sabido apreciar o chá e, assim, entendido um pouco mais da alma chinesa.

(texto originalmente publicado na revista China Hoje, edição 6).

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