O Confucionismo para o Século XXI

out 12, 2016

Statue of Confucius at Confucian Temple in Shanghai, China

Reconhecido como um dos maiores pensadores chineses, Confúcio (Kǒngzǐ, 孔子 – 551 a 479 a.C) elaborou uma doutrina com lições valiosas para líderes garantirem a ordem e a prosperidade em seus reinos. Seus ensinamentos influenciaram gerações futuras tanto na China como em outros países asiáticos. Thorsten Pattberg, autor do livro The East-West Dichotomy, afirma que “Confúcio provavelmente é para a Ásia Oriental o que Jesus Cristo e Platão são para o Ocidente”.[1] Uma comparação audaciosa ao situar Confúcio como referência tanto da filosofia como da religião. A despeito disto, o confucionismo continua sendo pouco estudado e, até mesmo, ignorado fora da Ásia.

O pensamento confucionista exerceu grande influência no período dinástico. Como ideologia política, ele servia aos objetivos de manutenção da ordem por meio do respeito à hierarquia, tanto na esfera política como social, do conhecimento das lições dos clássicos como fonte confiável de saber, e do respeito aos ritos, isto é, às regras de conduta tidas como corretas para cada tipo de relação.

Mesmo após ter sofrido grande rejeição no período maoísta por ser considerada uma filosofia que perpetuava valores conservadores, a herança confucionista é ainda vertebral na cultura chinesa atual. E mais do que isto, tem se tornado um capital cultural valioso para o governo chinês.Desde que assumiu a Presidência da China, Xi Jinping tem dado demonstrações explícitas de apreço ao Confúcio e às lições confucionistas. Em novembro de 2013 ele foi à Qufu, cidade natal de Confúcio situada na província de Shandong e que conta com uma população de 640.000 habitantes. Lá, após falar da importância das obras confucionistas, dentre elas Os Analectos (em chinês, Lúnyǔ, 论语), Xi Jinping declarou: “a razão pela qual eu escolhi visitar Qufu é para emitir um sinal: nós precisamos vigorosamente promover a cultura tradicional da China”.

Xi Jinping vê na cultura tradicional chinesa um recurso importante para a governança da China. Valores confucionistas como harmonia, benevolência, honestidade e sinceridade passaram a integrar os discursos oficiais. Segundo Wu Yixue, escritor sênior do China Daily, há um velho ditado chinês que diz que “se pode governar bem um país se se sabe metade dos Analectos e se segue seus ensinamentos”.[2]

A doutrina do Confúcio ressoa no chinês ainda hoje. Se você perguntar a qualquer um se as lições confucionistas ainda exercem alguma influência sobre a sociedade chinesa, certamente responderão que sim. E a primeira lição confucionista que lhes vem à mente é a do dever de obediência aos pais. Estive em Beijing em abril deste ano e notei que os desenhos que enfeitavam os muros que cercam algumas obras de engenharia ilustravam a figura do pai e seu filho ao lado da palavra “xiàodao” (小道) que expressa esta virtude confucionista do dever filial.

Mas um dos conceitos da doutrina confucionista que eu gostaria de chamar a atenção é a do jūnzǐ (君子) que designa a pessoa cujo caráter encarna a virtude da benevolência e cujos atos estão em conformidade com a retidão. Para se tornar um jūnzǐ é preciso ser a melhor versão possível de si mesmo, ensina Confúcio. Isto não significa que devemos nos pôr em um estado de imunidade diante do mundo, muito pelo contrário. O autor do best-seller Confucius from the Heart, Yu Dan, explica: “‘Cultivar o caráter moral’ é o primeiro passo para assumir responsabilidade para com a nação e a sociedade”[3]. Ou seja, devemos ser a melhor versão possível de nós mesmos para assumirmos responsabilidades sociais e, assim, podermos trazer estabilidade para o mundo. Em tempos de crise moral e ética na sociedade contemporânea as lições confucionistas tornam-se muito atuais e necessárias.

Há uma lição nos Analectos que nos ajuda a evidenciar o contraste entre o que nos tornamos hoje e o que deixamos de ser: “os homens da antiguidade estudavam para melhorar a si mesmos; os homens de hoje estudam para impressionar os outros”. Este pensamento corrobora a inequívoca inexistência do auto-cultivo na sociedade atual e me faz pensar em outra lição: o jūnzǐ entende o que é moral, enquanto que a pessoa vil só entende o que é rentável. Se não nos dedicarmos a sermos as melhores versões de nós mesmos, a riqueza material e espiritual que supomos ter alcançado será frágil pois não resistirá aos tempos de grandes provações. Confúcio deixou ensinamentos que são matéria-prima para o futuro.


[1] Thorsten Pattberg. “Times and culture beckon Confucius back”. China Daily, 26 de setembro de 2014, p. 9. http://usa.chinadaily.com.cn/opinion/2014-09/26/content_18664798.htm

[2] Wu Yixue. “No place for negative traditional culture”. China Daily, 31 de outubro de 2014, p. 9.

[3] Yu Dan. Confucius from the Heart. New York: Atria books, 2009, p. 81.

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3 Comentários

  1. Hebe Ribeiro

    Artigo muito bom. Não apenas mostra que a China historicamente existe bem antes do período maoísta, como esclarece uma influência muito forte na sua formação: o confucionismo que, aliás, não se restringiu a esse país. Valeria ampliar a análise.

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  2. Ryath

    Muito bom!
    Parabéns!

    Responder

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