A Mulher e o Poder na Ásia

jan 24, 2016

China-and-Taiwan

A eleição da candidata Tsai Ing-wen, do Partido Progressista Democrático (PPD), no sábado passado, para presidir Taiwan é mais um ponto de tensão no leste asiático. O PPD é pró-independência e, diferentemente do Partido Nacionalista (Kuomintang) que estava no governo há oito anos, rejeita o Consenso de 1992 que reconhece a existência de uma única China.

A tensão histórica entre a ilha de Taiwan e a China continental remonta ao século passado. Na disputa pelo poder na China após longos anos de guerra civil, o Partido Comunista sai vitorioso e funda a República Popular da China (RPC) em 1949. O Kuomintang refugia-se na ilha para lá fundar a República da China. Ambos os lados se diziam representar o mesmo país. O que se viu a partir daí foi a usual – e muitas vezes consentida – intervenção estrangeira neste conflito. Taiwan havia sido reconhecida pelos países capitalistas e participado da fundação da ONU. Mas em 1971 é substituída pela China comunista que retoma o seu lugar na organização. Os EUA reconhecem o governo de Mao Zedong como sendo o legítimo governo chinês mas continuavam com a política de apoio militar à Taiwan. O Brasil, em plena ditadura anticomunista, reconhece a China em 1974 numa atitude pragmática de política externa.

Apesar deste novo cenário, a tensão entre os dois lados permaneceu. Taiwan promoveu uma série de reformas visando instituir uma identidade taiwanesa diferenciada da China. Uma destas reformas era a democrática. A primeira eleição presidencial ocorreu em 1996, elegendo o candidato do Kuomintang. Na eleição seguinte, em 2000, o candidato do PPD vence e é reeleito em 2004. Somente em 2008 o Kuomintang recupera o poder para perdê-lo agora em 2016.

Boa parte da mídia ocidental vê na eleição de Tsai Ing-wen um fator que trará de volta a questão da independência de Taiwan e pressionará o governo chinês por reformas democráticas, aumentando a instabilidade na região. Porém, pesquisas recentes mostram que mais de 65% dos taiwaneses preferem manter o status quo, isto é, aquele estabelecido no Consenso de 1992. Os laços econômicos cada vez maiores e os investimentos chineses na ilha contribuem para a estabilidade das relações. E os chineses, por sua vez, não parecem seduzidos pela democracia dos países ocidentais que estão numa profunda crise de legitimidade ante os inúmeros problemas econômicos e sociais enfrentados. Do ponto de vista do Brasil, é menos importante que a China seja uma democracia nos moldes ocidentais do que os EUA serem mais democráticos no plano internacional.

Talvez o único constrangimento eficaz que a eleição de Tsai Ing-Wen pode causar à China seja aquele relativo às questões de gênero no poder. Vale lembrar que a Coreia do Sul é também governada, e pela primeira vez, por uma mulher, a Park Geun-hye. A presença da mulher na alta hierarquia do Partido e do Estado chinês ainda é incipiente. Provavelmente este fato venha a se tornar uma agenda inescapável para o governo de Xi Jinping a fim de demonstrar a aderência do modelo chinês aos novos tempos. Seria surpreendente se, nas comemorações do centenário de fundação da China, em 2049, uma mulher estivesse no comando do país. Para quem duvidava em ver um negro na presidência dos EUA ou um latino no comando da Santa Sé, não custa nada ser menos cético.

Este artigo foi publicado, originalmente, no jornal O Globo no dia 21 de janeiro de 2016, sob o título “O que muda em Taiwan?”. Disponível no link: http://oglobo.globo.com/opiniao/o-que-muda-em-taiwan-18512285

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