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24 Jan 16

A Mulher e o Poder na Ásia

China-and-Taiwan

A eleição da candidata Tsai Ing-wen, do Partido Progressista Democrático (PPD), no sábado passado, para presidir Taiwan é mais um ponto de tensão no leste asiático. O PPD é pró-independência e, diferentemente do Partido Nacionalista (Kuomintang) que estava no governo há oito anos, rejeita o Consenso de 1992 que reconhece a existência de uma única China.

A tensão histórica entre a ilha de Taiwan e a China continental remonta ao século passado. Na disputa pelo poder na China após longos anos de guerra civil, o Partido Comunista sai vitorioso e funda a República Popular da China (RPC) em 1949. O Kuomintang refugia-se na ilha para lá fundar a República da China. Ambos os lados se diziam representar o mesmo país. O que se viu a partir daí foi a usual – e muitas vezes consentida – intervenção estrangeira neste conflito. Taiwan havia sido reconhecida pelos países capitalistas e participado da fundação da ONU. Mas em 1971 é substituída pela China comunista que retoma o seu lugar na organização. Os EUA reconhecem o governo de Mao Zedong como sendo o legítimo governo chinês mas continuavam com a política de apoio militar à Taiwan. O Brasil, em plena ditadura anticomunista, reconhece a China em 1974 numa atitude pragmática de política externa.

Apesar deste novo cenário, a tensão entre os dois lados permaneceu. Taiwan promoveu uma série de reformas visando instituir uma identidade taiwanesa diferenciada da China. Uma destas reformas era a democrática. Leia mais

03 Out 15

Fim da política do filho único, fim de uma era

Blog.Child.PolicyRenshan renhai (人山人海) é uma expressão chinesa que poderia ser traduzida como “montanha de pessoas, mar de gente”. Transmite a ideia de multidão. Esta frase se aplica perfeitamente durante o período do feriado nacional que começou no dia 1o de outubro para celebrar a fundação da República Popular da China. Decidi aproveitar a manhã ensolarada e azul do segundo dia do feriadão para ir até o Yuyuan Garden aqui em Shanghai. Local de arquitetura tipicamente chinesa com um comércio vibrante que passei a gostar para passar meu tempo em dias de descanso. Não deu outra: uma montanha de gente, um mar de pessoas. Devido a isto, a circulação no local tinha que obedecer a direção estabelecida pelos policiais. É nestas horas que você vive a China de um jeito que também lhe faz entender muitos aspectos do cotidiano deste povo.

A China conta, atualmente, com uma população de 1.38 bilhão de habitantes distribuídos em 56 etnias. Dados oficiais dizem que pouco mais de 90% deles são da etnia Han. A China, portanto, é Han. Estima-se que em 2020 a população será de 1.43 bilhão e, em 2033 alcance o pico de 1.5 bilhão. Neste oceano de gente um núcleo bem menor ocupa um lugar central na estrutura da sociedade e na manutenção da ordem social: a família. Ela é central na cultura chinesa. Diferentemente do Ocidente onde cada novo casal inaugura um núcleo familiar quase independente de suas famílias de origem, na China, o novo casal casa com as famílias de seus respectivos cônjuges e que não se restringe aos avós, pais, filhos e netos – ela alarga-se na linha horizontal de parentesco de modo a incluir tios, tias, primos, primas de todos os graus. A família chinesa é a perfeita tradução da noção de “coletividade” no maior país dito comunista do mundo: na perspectiva do indivíduo chinês, o “coletivo” vai até aonde a vista alcança um parente. Pela família, o chinês faz o que for preciso. As exceções inserem-se dentro da rede de relações pessoais cultivadas pelos chineses – conhecida pela expressão “guanxi” (关系).

Um país com uma população majoritariamente homogênea em relação à etnia e ao modo como organiza o papel da família e seus valores tem na sua expressão numérica um fator importante. A demografia e as políticas de planejamento populacional podem explicar certos padrões comportamentais das famílias, bem como as mudanças que poderão ocorrer nos seus hábitos e, no limite, no seu próprio conceito. Leia mais

11 Jul 15

A China e os seus dois Ocidentes. Qual é o nosso?

Vista.Chinesa

Um estrangeiro recém chegado na China é um potencial candidato a ser um veiculador de clichês. Muitos que aqui estão querem transmitir aos seus compatriotas do país de origem uma visão sobre a China que superdimensiona aquilo que é tido como caracteristicamente peculiar na cultura chinesa. Aí todos os tipos de clichês se afloram: a China confucionista, do chinês mal educado, da culinária peculiar etc. É mais ou menos como aquele estrangeiro que está no Brasil e que, no intuito de querer “conhecer” o Brasil, aquele país tropical abençoado por Deus, procura por araras, mulatas, um barquinho e um violão, além de uma manhã de carnaval que se estenderia pelo dia inteiro. O resultado disto é que se vive um país que não existe a não ser na imaginação dos inocentes em busca de um mundo perdido em algum lugar da sua mente.

Pôr a lupa sobre aquilo que os nossos olhos já veem de modo condicionado pelas informações que circulam recheadas de estereótipos só nos impede de ver a realidade como ela é. O melhor a fazer para se prevenir das imagens distorcidas por um preconceito ou romantismo exacerbado da realidade é, simplesmente, abandonar as lentes que deturpam os sentidos e enfronhar-se no cotidiano do país para ver, com os próprios olhos, como ele é.

Estou morando na China há dois anos. Parece muito, mas não é. O tempo de aprendizagem, adaptação e gosto pela China não é, para nós “ocidentais”, o tempo que levamos para aprender a se adaptar e a gostar de uma Espanha, uma França, uma Itália, por exemplo. Certa vez, o diplomata brasileiro Durval Carvalho compartilhou comigo a seguinte reflexão: “Quando nós brasileiros vamos morar na Europa, 80% do software sobre a cultura europeia já está instalado em nós. Mas quando se chega na China, o download que fazemos da cultura e do idioma chinês começa do zero e progride lentamente”. Ele tem razão. E faço um pequeno acréscimo: o download é daqueles que avança e recua com frequência a depender do grau de conexão que se estabelece com a China, ou seja, com a sua língua, com os chineses, com a sua cultura. Não basta morar aqui, é preciso viver e querer viver a China. E recomendo não vir para cá munido apenas das informações que a mídia ocidental veicula sobre a China.

Aliás, este é um assunto que merece uma reflexão. Na China, a palavra “Ocidente” pode ser dita de duas formas Leia mais

18 Fev 13

Por que ‘China’?

De repente o mundo dito ocidental descobre a China. É esta a impressão que temos quando vemos inúmeras notícias a respeito da influência chinesa na Ásia e o impacto de sua economia sobre o mercado mundial. Muitos agora voltam o seu olhar sobre o continente asiático e, em particular, sobre a China com o intuito de entender o que será do mundo nas próximas décadas. Bem ao gosto do capitalismo ocidental diríamos: “a China está na moda”. Mas esta seria, como toda moda, passageira? Em outras palavras, o modelo chinês de sociedade e de organização política e econômica será capaz de atrair o gosto de outros países? Mas este modelo chinês já não seria resultado de uma adaptação ao modelo ocidental capitalista dos países desenvolvidos? A China, assim, seria vítima ou agente neste mercado de ideias sobre como tornar-se um país próspero?

SAM_2681_okA China tem um história milenar. Mas o que faz com que muitos de nós desconheçamos quase tudo sobre a China e sua cultura? Por que anos de educação escolar omitem um lado da história mundial que acontece no continente asiático? É porque nada temos a aprender com a Ásia e os chineses? Claro que não. Se o Brasil pretende exercer algum protagonismo no cenário internacional, conhecer o mundo em toda a sua extensão é um requisito fundamental. E, para isto, é preciso pensar com autonomia e se abrir para o diálogo com outros povos e culturas. Esta troca de visões de mundo é a base de qualquer processo de inovação institucional. Estabelecer relações com quem acreditamos ser diferentes de nós é o primeiro passo para descobrirmos mais sobre nós mesmos.

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18 Fev 13

China no ano da serpente

Xi Jinping (créditos: Wikipedia)O desconhecimento da cultura chinesa no Brasil é causa de inúmeros equívocos e preconceitos a respeito da vida política e social daquele país. A China é o clássico exemplo do “Outro” que, por ser tão diferente de “Nós”, é preciso fazer um esforço extraordinário para compreender e descobrir que há, neste país, um debate fascinante de ideias e de concepções de mundo que pode renovar o sentido e a prática das relações internacionais contemporâneas. A China é hoje o principal Estado impulsionador das mudanças no sistema internacional em razão de seu peso político, econômico e cultural. Tudo neste país é superlativo. Suas escolhas e decisões interessam ao mundo em virtude do impacto que elas podem ter na política externa e interna de qualquer nação.

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